Três anos e meio, e nenhuma só palavra,
pensava Lia calada enquanto observava seu filho brincando com o velho aviãozinho
no chão da sala. Tudo que ele pegava em suas mãos, fingia ser um avião e ficava
fazendo o mesmo movimento de vai e vem. Não emitia nenhum som, apenas vibrava
os lábios imitando o barulho de um motor.
Vou tentar mais uma abordagem direta,
pensou ela enquanto se aproximava um pouco mais.
- João, diz
pra mamãe, você quer comer?
Nenhuma
resposta.
- Quer brincar
com a mamãe?
Novamente o silencia
se mantinha.
- Olha para
mim filho, olha para a mamãe! – Dizia enquanto as primeiras lágrimas surgiam em
seus olhos. – Por favor meu filho, me diz alguma coisa.
João não
esboçava nenhuma reação. Mantinha sua brincadeira, o mesmo vai e vem com o avião.
- Que tal se a
gente cantasse uma música juntos! Igual a mamãe canta para você todas as noites
antes de dormir.
Mas, ao
começar a cantar a canção como ela fazia todas as noites para ele, João se
levantou, agora já não brincava mais, virou de costas para ela e foi em direção
à porta. Lia agora não segurava mais as lágrimas, seu filho parecia que nunca
iria falar, nem sequer, iria dar atenção a qualquer coisa que ela ou Geraldo
fizessem. Cobria o rosto com as mãos, e já não segurava o choro.
João abriu a
porta, e saiu para o pasto que havia em frente sua casa.
Ao chegar na
porteira, olhou para trás, e ainda era possível ver sua mãe ajoelhada no chão
da sala, ainda não controlando seu choro. Olhou em seus olhos azuis, agora mais
brilhantes por causa das lágrimas, um sorriso surgiu no canto de sua boca. João
a abriu lentamente, e foi possível ouvir um pequeno sussurro:
- Avião.
Lia não podia
acreditar que ele havia dito uma palavra, avião.
Era a primeira vez que ouvira a voz de seu filho, que agora corria em direção a
sua árvore preferida. Ao vê-lo correndo, saiu de sua casa e se encostou na
pequena porteira. Foi possível ver apenas as pequeninas pernas terminando de
escalar a mesma árvore de sempre.
- Meu filho
falou.
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