quinta-feira, 18 de julho de 2013

Avião

Três anos e meio, e nenhuma só palavra, pensava Lia calada enquanto observava seu filho brincando com o velho aviãozinho no chão da sala. Tudo que ele pegava em suas mãos, fingia ser um avião e ficava fazendo o mesmo movimento de vai e vem. Não emitia nenhum som, apenas vibrava os lábios imitando o barulho de um motor.
Vou tentar mais uma abordagem direta, pensou ela enquanto se aproximava um pouco mais.
- João, diz pra mamãe, você quer comer?
Nenhuma resposta.
- Quer brincar com a mamãe?
Novamente o silencia se mantinha.
- Olha para mim filho, olha para a mamãe! – Dizia enquanto as primeiras lágrimas surgiam em seus olhos. – Por favor meu filho, me diz alguma coisa.
João não esboçava nenhuma reação. Mantinha sua brincadeira, o mesmo vai e vem com o avião.
- Que tal se a gente cantasse uma música juntos! Igual a mamãe canta para você todas as noites antes de dormir.
Mas, ao começar a cantar a canção como ela fazia todas as noites para ele, João se levantou, agora já não brincava mais, virou de costas para ela e foi em direção à porta. Lia agora não segurava mais as lágrimas, seu filho parecia que nunca iria falar, nem sequer, iria dar atenção a qualquer coisa que ela ou Geraldo fizessem. Cobria o rosto com as mãos, e já não segurava o choro.
João abriu a porta, e saiu para o pasto que havia em frente sua casa.
Ao chegar na porteira, olhou para trás, e ainda era possível ver sua mãe ajoelhada no chão da sala, ainda não controlando seu choro. Olhou em seus olhos azuis, agora mais brilhantes por causa das lágrimas, um sorriso surgiu no canto de sua boca. João a abriu lentamente, e foi possível ouvir um pequeno sussurro:
- Avião.
Lia não podia acreditar que ele havia dito uma palavra, avião. Era a primeira vez que ouvira a voz de seu filho, que agora corria em direção a sua árvore preferida. Ao vê-lo correndo, saiu de sua casa e se encostou na pequena porteira. Foi possível ver apenas as pequeninas pernas terminando de escalar a mesma árvore de sempre.

- Meu filho falou.

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