quarta-feira, 17 de julho de 2013

O acidente

A cidade mais próxima da fazenda ficava a 10 quilômetros.
Pelo menos uma vez por semana, Geraldo e Lia se deslocavam até lá para fazer compras e aproveitavam para levar o pequeno João para passear.
Após uma tarde de compras e um passeio breve por uma praça próxima ao mercado, os três resolveram voltar para casa, exaustos e com a caminhonete cheia, partiram para a estrada e seus tradicionais 10 quilômetros de trajeto.
Porém uma cena lhes deixou assustados: Bem a sua frente, um carro aparentemente acabara de capotar, e até aquele momento ninguém havia aparecido para prestar socorros. Mais que instantaneamente, Geraldo parou a caminhonete, pediu para que Lia e João ficassem no carro e saiu gritando para saber se estavam bem.
O carro estava de ponta cabeça. Com boa parte de sua lataria amassada, não se ouviam pedidos de socorro, o que fez Lia pensar o pior sobre aquela situação. João ficou em pé no banco, observando tudo o que acontecia naquele momento.
- Não olhe meu filho – pedia Lia a João, enquanto ele tentava entender o que se passava. – O papai já vem. A polícia deve estar a caminho.
Geraldo começou a se aproximar do carro, quando começou a chamar pelas pessoas que estavam no carro:
- Estão todos bem? Alguém ferido?
- Por favor, nos ajude! – Veio uma voz trêmula de dentro do carro.
- Calma, tudo vai ficar bem – respondeu Geraldo. – Eu já liguei para a polícia e para a ambulância. Estão a caminho.
- Estamos presos. Não conseguimos sair. Minha mulher está desmaiada. E não consigo ouvir meu filho, não sei se ele estava usando o cinto – a voz fez uma pausa. – E não consigo olhar para trás, meu pescoço não se move.
Naquele momento, João saiu correndo pela porta que o pai havia deixado aberta, mesmo com os gritos de Lia para que ficasse ali, ele atravessou o gramado e pulou a cerca que estava fixada a uns 10 metros da estrada.
- Geraldo! O João saiu correndo para a cerca! – Gritou Lia para seu marido, que estava de costas para eles.
Ao ver o filho correndo, Geraldo praticamente esqueceu da família dentro do carro, e saiu em disparada atrás de seu filho, sem saber dessa vez onde ele estava indo. Após percorrer uns 8 ou 10 metros depois da cerca, ele encontrou seu filho, abaixado próximo a uma região onde o mato havia estava aparentemente mais baixo.
O susto de Geraldo, ao chegar, foi ver o motivo daquela parte estar mais baixa: O filho do casal se encontrava caído ali, praticamente sem consciência, mostrando que ele havia sido arremessado durante o acidente. O pequeno João olhava para ele e, ao ver seu pai chegar, se levantou e voltou para o carro, como sempre, sem pronunciar uma única palavra.
Mais 5 minutos, e a polícia e a ambulância chegaram, Geraldo mostrou onde estava a criança. Preferiu não tirá-la do lugar por medo de quebrar alguma coisa. Naquele momentos pelo menos mais uns 5 ou 6 carros estavam parados ali, uns por curiosidade, outros ajudando na sinalização e prestando os socorros que lhes eram possíveis.
Ao entrar no carro, Geraldo olhou para Lia e depois voltou seu olhar para o pequeno João, que por sua vez, olhava sempre para frente.
- Como você sabia que aquele garoto estava lá? – Perguntou ao seu filho.
João se mantinha imóvel e calado, como se a pergunta não fosse para ele.
- Foi como na vez do pássaro. Como pode saber dessas coisas?
Lia colocou a mão em seu ombro, olhou em seus olhos, e fez um sinal negativo com a cabeça.

- Vamos para casa Geraldo, precisamos descansar. 

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